Brasil

10/08/2018 09:40 Época

Discussões mornas, plateia silenciosa: bastidores do primeiro debate dos presidenciáveis

Nunca dá para entender todos os versos de um grito de guerra. “Olha nós aqui/ (ininteligível)/ parar o Morumbi!”. “Um dois três/ quatro cinco mil/ (ininteligível)/ ou paramos o Brasil!”. Causa. O terceiro verso tinha a palavra causa no meio. Na noite desta quinta-feira, a margem esquerda da Avenida Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, estava ocupada por dezenas de militantes do PSOL que reciclavam corinhos de passeata e seguravam cartazes de apoio a Guilherme Boulos, candidato do partido à Presidência da República. Muitos deles eram negros e pardos. De bermuda, não pareciam se incomodar com o frio tímido da noite paulistana. Do outro lado, uma dúzia de militantes do PDT, partido de Ciro Gomes, outro presidenciável, agitavam algumas bandeiras sem muita animação. Todos homens e brancos e alguns de suéter. A poucos metros dali, nos estúdios da Rede Bandeirantes, aconteceu o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República. O debate durou mais de três horas, mas, na maior parte do tempo, o estúdio estava mais desanimado do que os militantes do PDT no sereno.

No palco, eram quatro candidatos de cada lado. No meio, o jornalista Ricardo Boechat. A única mulher era Marina Silva, da REDE. É a terceira vez que Marina disputa a Presidência, mas ela parece ainda querer se apresentar como novidade ao eleitor – ou, pelo menos, não quer parecer uma velha candidata. Ela vestia um jovial blazer branco, mas, nos intervalos, se enrolava toda num xale roxo trazido diligentemente por seus assessores. Boulos vestia uma camisa branca, para fora da calça e com as mangas dobradas. O cavanhaque virou um barba completa, que faz lembrar ainda mais um jovem Lula, especialmente quando ele começa a discursar. Álvaro Dias, candidato do Podemos estava de blazer, camisa escura e sapato de couro – mas sem gravata. Todos os outros candidatos optaram por ternos escuros, camisas brancas e gravatas mais ou menos discretas. O único que lembrou de ajustar a barra da calça foi Geraldo Alckmin, do PSDB.

Na plateia, havia poucas estrelas da política. Cadê os vices? Ana Amélia (PP), vice de Alckmin, estava na primeira fila, entre Lu Alckmin, candidata a primeira-dama, e o deputado federal Miro Teixeira (REDE), aliado de Marina Silva. Ana Amélia e Dona Lu pouco interagiram. Não conservaram nem durante os intervalos. Por ali também estavam Carlos Lupi (PDT), Major Olímpio (PSL), o prefeito de São Paulo Bruno Covas e, algumas fileiras atrás, um aglomerado de bolsonaristas, como Flávio Bolsonaro, o filho, e Letícia Catelani, empresária do ramos de exportações. O ex-prefeito de São Paulo e candidato a governador João Doria apareceu durante um dos intervalos e despareceu rápido. Ao longo do debate, Boechat quase não precisou pedir para a plateia fazer silêncio. A conversa tediosa dos candidatos não incentivava quase ninguém a torcer, gargalhar ou xingar.

Começou o debate. Boechat lembra que o ex-presidente Lula foi convidado a participar, mas não pode comparecer. Boechat não explica que Lula não pôde ir porque está preso em Curitiba. Mas nem precisou. Todo mundo já sabia. E Boulos também fez questão de lembrar. “Boa noite ao ex-presidente Lula, que deveria estar aqui, mas está preso em Curitiba enquanto Temer está solto lá em Brasília”, disse, antes de responder a primeira pergunta, sobre desemprego. Os outros candidatos preferiram apresentações mais anódinas. Álvaro Dias nem chegou a falar de desemprego. Preferiu recitar seu currículo num tom monocórdio para a agonia da plateia, que suspirou aliviada quando Boechat o nterrompeu. O tempo tinha acabado bem na hora que ele começara a falar do juiz Sergio Moro, a quem ele quer nomear ministro da Justiça em sua República refundada.

“Glória a Deus! Glória a Deus!”, começou Cabo Daciolo (Patriota), que repetiu um sem-número de vezes que é “servo do Deus vivo” e quer fazer isto e aquilo para “a honra e glória do Senhor Jesus”. Bolsonaro e Marina também agradeceram a Deus. Henrique Meirelles (MDB) não quis agradecer ninguém. Ministro da Fazenda de Michel Temer e presidente do Banco Central no governo Lula, Meirelles se esforçou para embelezar seu currículo sem jamais dizer a quais presidentes serviu. Afinal, ele não é o candidato de Lula e ninguém quer ser o candidato de Temer. Meirelles tentou e tentou, mas, passada uma quase uma hora do debate, precisou citar o nome de um ex-presidente. Ele perguntara a Dias de quem é a culpa pela deterioração recente da economia brasileira. Dias, talvez para se redimir dos discursos sonolentos que vinha fazendo desde o início do debate, respondeu: “O senhor que passou por lá (pelo governo) é quem devia explicar”. E a plateia riu. Eram 22h49 e a plateia riu com gosto pela primeira vez na noite. (Antes, um comentário de Bolsonaro havia sobre um futuro em que os homens é que vão querer ganhar tanto quanto as mulheres arrancou um risinho aqui e outro ali, mas nada demais.) “Eu não participei do governo anterior, do governo da Dilma”, rebateu Meirelles, engasgado.

O debate seguiu. Chato. Marina tentou emplacar um novo slogan: “Aqueles que criaram o problema não vão resolver o problema”. Bolsonaro permaneceu quase o tempo todo sentado, os braços cruzados em cima do púlpito. Quando a câmera não estava olhando, ele sacava um par de óculos para ler uns papéis. Alckmin também lia papéis – o tempo todo. Ciro Gomes não tirava os olhos de Alckmin, seu alvo preferencial e “amigo pessoal”, como repetiu diversas vezes. Ciro passou o debate todo sentado, com os braços cruzados e corpo voltado para o outro lado do palco, onde estava Alckmin, sempre em pé, com sua fala mansa de médico de província e admirador de um tal de “modelo alemão” que ele citou duas vezes. Alguma coisa a ver com voto distrital. Meirelles ficava o tempo todo com as mãos nos bolsos da calça (um tanto larga). “O Ciro dormiu!”, disse alguém na plateia. Será? O candidato parecia estar com os olhos fechados, mas virou o rosto bem desperto. Será que ele ouviu o comentário da plateia? Dormiu de novo. Não, não dormiu. Os olhos estavam abertos, mas ele olhava para baixo para ler discretamente um papel. Os braços cruzados.

Boulos era, sem dúvida, o candidato mais entediado. Inquieto. Sentava e levantava. Fazia uma ginástica rápida quando a câmera não estava olhando. Olhava para a plateia com um meio sorrido. Cruzava os braços. Descruzava. Cruzava de novo, agora atrás da cabeça. Apoiava o queixo numa das mãos. Mexia na barba. Coçava a sobrancelha com o polegar. “O Boulos parece um lutador de boxe antes de entrar no ringue, né?”, comentou outro moço na plateia. Os alvos preferenciais dos socos de Boulos eram Meirelles e Bolsonaro. Mas ele batia em todo mundo. E arriscou algumas frases de efeito. Disse que os outros candidatos eram “50 tons de Temer” e que era bom o eleitor pesquisar o que os outros presidenciáveis “fizeram no verão passado”. Ele repetiu várias vezes – em vários blocos – a palavra “esculhambação”, com a qual ele disse pretende acabar, se eleito.

Intervalo do terceiro para o quarto bloco. Não importava quantas vezes Álvaro Dias dissesse “abre o olho, povo brasileiro!” (e ele repetia a frase quase tantas vezes quanto o nome de Sergio Moro), era difícil permanecer acordado. “Você dormiu?”, pergunta uma mulher a um rapaz. “Quase.” Flávio Bolsonaro e seus amigos queriam saber quantos blocos ainda faltavam. Mais um ou mais dois? Quando vão ser as considerações finais? Letícia Catelani avisou que ainda faltam dois blocos. Ela se destacava no meio da claque bolsonarista, composta majoritariamente de homens de meia-idade e pós-adolescentes. Loira esvoaçante, unhas vermelhas, anéis e pulseiras, sapato plataforma de salto alto preto e dourado e casaco azul. Catelani passara boa parte do tempo do bloco anterior tentando se comunicar com alguém no outro extremo da plateia. No palco, Ciro e Marina falavam de meio ambiente. Marina havia arriscado outra frase de efeito: “O condomínio está cheio de lobo mau querendo comer o dinheiro da vovozinha”. Os marqueteiros, ali perto do palco, entediados, checavam o celular. E Catelani fazia gestos para alguém lá longe. Ela chegou a sacudir um mexa do próprio cabelo com as mãos para tentar passar a mensagem, mas parece que não deu certo.

Considerações finais. Ciro prometeu limpar o nome dos brasileiros. Boulos falou “esculhambação” e “50 tons de Temer”. Marina tentou elogiar seu aliado Miro Teixeira, mas o chamou de Ciro Gomes. Ela se corrigeu rapidamente e o deputado amigo aplaudu. Sozinho. Pouco antes, Boechat pedira à plateia que evitasse as palmas. Não adiantou. Quando Bolsonaro falou em acabar com o comunismo, sepultar o foro de São Paulo e fazer as mães brasileiras sorrirem, a claque bolsonarista vibrou, gritou, aplaudiu. “Bolsonaro!”, bradou Catelani. Álvaro Dias aconselhou o brasileiro a abrir o olho (outra vez). Citou Moro e Raul Seixas, mas ninguém se comoveu. Cabo Daciolo leu um versículo bíblico e profetizou tempos de bênção para o Brasil. Sua claque fez algum barulho. Alckmin falou, falou e ninguém aplaudiu. Miro Teixeira aplaudiu, mas disse que suas palmas eram para Boechat. “Ele merece”, disse. O último a falar foi Meirelles, mas foi difícil prestar atenção. A gesticulação robótica do ex-ministro de presidentes nunca nomeados era mais hipnótica do que o discurso.

Acabou. Um bolsonarista aproveitou o esvaziamento do auditório para gravar um vídeo para um pessoal do Paraná. Quando Bolsonaro saiu do estúdio, ouviu-se gritos: “Racista! homofóbico!”. “Olha o pessoal da esquerda aí”, disse um bolsonarista com algum deboche. “Sempre tem um babaca...”. “Cada um chama do que quiser, Sérgio!”, disse a mulher dele, que não parecia disposta a um debate


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Jose Lucio Junqueira Caldas
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