Regional

04/08/2016 09:34

Traficante conta como funciona o contrabando e o comércio de armas em MT

Somente de janeiro a abril deste ano foram apreendidas 699 armas no Estado de acordo com estatísticas da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp). Apesar do grande número de apreensões, assaltos, crimes de pistolagem, assassinatos e outros delitos cometidos com uso de arma de fogo dominam os noticiários em Mato Grosso.

Ao fazer um levantamento sobre esse paradoxo, o Circuito Mato Grosso chegou a um homem que durante anos comercializou armas ilegalmente em Cuiabá e que relata detalhes sobre o comércio paralelo.

Leandro Divino*, 37 anos, em entrevista exclusiva ao Circuito Mato Grosso, revela esquemas utilizados para venda ilegal de armas em Mato Grosso, incluindo entradas e saídas do País, corrupção policial, rotas e veículos utilizados para esse tipo de delito.

A forma mais comum utilizada por contrabandistas para entrada das armas, de acordo com Leandro é em caminhões baú, fazendo rotas alternativas por estradas vicinais. “Os caras carregam dentro da Bolívia e vêm para cá com mercadoria de retorno. Um exemplo são os caras que trabalham com colchão. Eles levam colchões para lá, para o comércio normal e esses colchões retornam por “defeitos” e recheados de armas”, explica ele, afirmando que o esquema envolve uma grande marca de colchões.

Leandro garante que no final do ano a maioria das armas vem da Bolívia, pois haveria intensificação por parte da polícia na fiscalização da fronteira do Paraguai, pois nesse período há entrada de muita mercadoria.

“Atualmente está mais difícil trazer as armas. A fronteira está embaçada por causa das drogas. Mas no horário que eles passam normalmente é mais tranquilo, horário de almoço. Usam dois vigias, os batedores, um na frente e outro atrás. Se tem barreira eles desviam em alguma estrada, aguardam e são avisados para passarem quando está liberado. Mas é tudo à luz do dia, que é menos suspeito. À noite não estão trabalhando”.

Tanto na Bolívia, quanto no Paraguai a negociação precisa ser em dinheiro, ao contrário do que costumava ocorrer um tempo atrás, quando aceitavam como pagamento carros roubados, de acordo com Leandro.  Essa mudança ocorreu após uma campanha entre as forças dos países para repatriar carros roubados.

“Os furgões que trazem as armas da Bolívia vêm somente por cabriteiras (estradas vicinais). Você vem de lá para cá, passa a carga para outro caminhão e sai com carro pequeno por fora. Mas esses caminhões grandes nunca são revistados, então a maioria das armas entra por esses caminhões baús”, diz.

Porém, acrescenta Leandro, o tráfico mais pesado ocorre na divisa com o Paraguai, onde as armas seriam vendidas por um preço mais em conta e haveria muito mais opções. * O nome utilizado é fictício para preservar a fonte

A relação comercial entre traficantes e policiais

Uma denúncia gravíssima feita por Leandro refere-se a uma possível relação de ‘parceria’ entre o vendedor de armas clandestinas e policiais.  “Uma arma restrita engrandece o policial quando ele apreende, mas apreender armas comuns é a mesma coisa que pegar um estilingue na rua. Para cada arma apreendida que eles apresentam – nas delegacias - eles deixam de apresentar dez. Eu andava com bolsas cheias de arma. Às vezes eu estava com dez, doze armas dentro da mochila. Quando me abordavam eu dizia que trabalhava para tal policial e mandava falar com ele, então eu era liberado”, conta

Leandro diz que fez este tipo de transação durante muito tempo e que, apesar de já ter saído do ‘ramo’ há cinco anos, ainda se mantém informado sobre os esquemas. “Primeiro eu vendia para a polícia. A polícia repassava arma do malandro, eu vendia, passava o dinheiro para eles e ganhava minha comissão. Isso foi ficando mais difícil e as armas começaram a vir de fora, da Bolívia e Paraguai.”

Calibre 38 e pistolas são as preferidas

As armas mais procuradas por pessoas geralmente com a intensão de praticar roubos ou em busca de uma suposta proteção são os revólveres calibre 38 e pistola.

“Aqui não usam muitas armas pesadas, é mais 38 e pistola. A maioria dos compradores é ladrãozinho de bairro. Às vezes algum traficante também compra, mas a maioria é ladrão”, afirma.

Leandro ainda relata que quando houve um aumento de interesse por armas melhores descobriu que era para roubo de caixa eletrônico. “Esses já querem armas mais pesadas como fuzil 762, AK-12, 9mm e .40. Além disso eles ficam de olho em cascalheira para roubar dinamite. Dinamite nunca é comprada legalmente, é tudo roubada”, conta.

O valor das armas contrabandeadas

Nesse mercado negro, uma pistola 22 simples custa em média R$ 1 mil. Já para o consumidor final aqui no estado, uma 22 Magnum custa, segundo ele, cerca de R$ 2.500 reais, também para entregar em mãos, enquanto que a mesma arma legalizada custa cerca de R$ 4.700.

“Não adianta proibir a arma legalizada, pois a ilegal entra, não tem jeito. Depois, nenhum bandido consegue comprar uma arma legalizada, por causa das passagens pela polícia. Se fosse mais fácil um cidadão comum ter arma, os bandidos pensariam duas vezes antes de assaltar”, comenta Leandro.

Ele relata ter presenciado a chegada de carregamentos com 500 caixas de munição de 22, mais 100 de 38, e 100 de pistola, mas explica que arma só vem por encomenda, não havendo estoques para venda por conta dos riscos e preço.

“Um 38 fora do País custa R$1.200 reais e aqui você vende por R$2.500, então é 100% de lucro. Com a munição é a mesma coisa”.

Apreensão de quase 6 armas por dia em MT

A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) registrou de janeiro a abril de 2016 a apreensão de 699 armas no Estado, ou 5,8 armas por dia. Só na Delegacia de Roubos e Furtos de Cuiabá chegam até quatro armas por semana. 

Já 2º Comando Regional da Polícia Militar, em Várzea Grande, apreendeu 260 armas no primeiro semestre deste ano. Nesse mesmo período de 2015 foram apreendidas 251 armas, geralmente fruto de roubos, posse e porte ilegal. O 2º Comando abrande os municípios de Várzea Grande, Rosário Oeste e Poconé.

O comandante do 2º Comando Regional, coronel Alessandro Ferreira da Silva cita, ainda, a utilização de armas de brinquedo, os simulacros para prática de crimes. “Muitos têm utilizado esse tipo de arma, pois, tecnicamente, na hora que são pegos há defesa. O cara não fica preso por porte de ilegal, pois não é uma arma de fogo, a não ser que seja pego em fragrante utilizando ela para tentar cometer um crime”.

Em reportagem publicada pelo Circuito Mato Grosso em sua edição 590, a Polícia Militar aponta a apreensão de pelo menos um simulacro por dia apenas do 1° Comando Regional, que fica em Cuiabá.

Bandidos inovam e alugam armas para assaltos

A criatividade dos bandidos não tem limites e, para empreender melhor os negócios, estão praticando aluguel de armas de fogo, de acordo com informações do titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Cuiabá, (Derf), Marcel Gomes de Oliveira.

“Desconfiamos que muitas armas são alugadas. Determinada pessoa tem uma arma e ele aluga para outro praticar o assalto. Temos observado que a mesma arma é utilizada por pessoas diferentes em crimes diferentes, como por exemplo uma arma de calibre 12 que apreendemos na semana passada e já havia sido utilizada para outros roubos”.

A informação é reiterada pelo Comandante do 2º Comando Regional da Polícia Militar, Coronel Alessandro Ferreira da Silva: “A Polícia Civil tem identificado, por meio do serviço de inteligência, que eles locam armas específicas para essa prática de roubo. Com a apreensão de uma arma nós identificamos vários outros crimes e acabamos encontrando outras armas”, pontua o comandante.

O oficial afirma, ainda, que a nova tendência tem fomentadores que estimulam a prática, mas não costumam participar dos roubos e recebem um percentual entre 20 e 30% do produto do roubo.

Fonte: CircuitoMT


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Jose Lucio Junqueira Caldas
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